“O especialista é um homem que sabe cada vez mais sobre cada vez menos,
e por fim acaba sabendo tudo sobre nada.”
George Bernard Shaw (1856–1950)
Recentemente — para os padrões digitais, há bastante tempo — diversos veículos afirmaram: “Jovens evitam a utilização de mecanismos de pesquisa, como o Google e o Bing. Eles preferem ferramentas como TikTok e YouTube; ao que tudo indica, o objetivo é evitar leituras”.
Contudo, conheço “semi-jovens” e “nada-jovens” que, há muito tempo e independentemente dos meios tecnológicos disponíveis, evitam ler e escrever.
Falei sobre esse assunto com tecnólogos e a maioria demonstrou preocupações com o futuro profissional desses jovens. Porém, de certo modo, será melhor se no porvir houver poucos profissionais e muitos amadores.
A palavra amador vem do latim amātor, que significa “aquele que ama”. A raiz do vocábulo “profissional” também é latina, vem de professio, “declaração pública de fé”, isto é, aquele que “professa” um ofício com competência reconhecida e obrigação social, quase sempre em troca de remuneração. No entanto, primeiro “amar” e depois obter reconhecimento e ganhos financeiros não é algo tão corriqueiro; se fosse, não veríamos com tanta frequência amadores superando profissionais, e ler e escrever provavelmente seriam tão comuns quanto assistir, ouvir e falar.
Ademais, não precisamos aguardar o futuro para presenciar analfabetos funcionais; infelizmente, já os temos em abundância. Entre eles — não paradoxalmente — encontramos inclusive bons técnicos (profissionais técnicos). Além disso, mesmo aqueles que evitam ler leem muito. Leem com frequência mensagens no WhatsApp, postagens em redes sociais, comentários em vídeos e outras efemeridades.
O problema surge quando reconhecemos o símbolo (palavra), mas desconhecemos o objeto que ele representa. Em analogia, suponha que uma criança esteja viajando por uma rodovia e, em determinado momento, observe uma placa contendo a silhueta de um avião e a indicação “12 km”. Agora suponha que ela reconheça o formato da aeronave, cada letra e número, mas não saiba que, a doze quilômetros, haverá um aeroporto nem tenha noção do quão distante é essa quilometragem.
Uma situação muito próxima à da criança ocorre quando alguém lê “só consigo continuar depois da sesta”, mas não compreende que sesta significa algo como “soneca”; ou quando se utiliza a palavra “empoderamento” para designar “promiscuidade”; ou, como último exemplo, quando alguém lê “duas aeronaves se cruzaram — proa com proa — a uma distância de míseros três quilômetros” e, sem captar a ironia, despertam-se sentimentos de irresponsabilidade e desejos por novas normas.
Em suma, aqueles que desconhecem a função — e o significado efetivo das palavras em cada contexto — ainda que saibam lê-las, enquadram-se na condição de analfabetos funcionais.
Convém observar que engenheiros dos mais variados ramos, desenvolvedores de software, matemáticos e muitos outros profissionais, mesmo que solucionem problemas de alta complexidade, dominem lógicas formais e sejam hábeis na análise de sistemas abstratos, não estão imunes ao analfabetismo funcional. São inteligentes e leem com frequência manuais, documentações, requisitos e outros artefatos; porém, não treinam a leitura dos sentidos, das intenções, das ambiguidades, das ironias, dos pressupostos, dos conceitos históricos e de outros fatores subjetivos. Leem instrumentalmente, não interpretativamente. Dominam o “como”, mas não precisam compreender o “por quê“.
São hábeis em lidar com causalidades claras, relações determinísticas, axiomas e regras explícitas; não têm dificuldade em compreender estruturas do tipo “se A, então B”. Todavia, fora da lógica estritamente profissional, é possível que A seja, ao mesmo tempo, cinquenta coisas distintas — e o mesmo ocorra com B. Os próprios jargões profissionais servem para reduzir as possibilidades interpretativas; assim, em nome da eficiência operacional, o vocabulário se empobrece. E o vocabulário é a principal ferramenta do pensamento.
Quando se atrofia o pensamento hermenêutico e se expande o técnico, aquilo que deveria ser interpretado é lido de modo literal; consideram-se metáforas e slogans como fatos; confundem-se prescrições com descrições; tornam-se imperceptíveis ironias, artifícios retóricos e manipulações. As consequências refletem-se nas músicas, nos filmes, em programas humorísticos e, de modo especialmente evidente, no campo moral e político.
Todos nós conhecemos profissionais excepcionais que, sem perceber, defendem políticos autoritários e sustentam posições sobre temas como aborto e liberação de drogas com a mesma segurança com que afirmam que dois mais dois são quatro; ou, na melhor das hipóteses, tratam tais questões como se algoritmos com variáveis limitadíssimas pudessem resolvê-las.
Em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, todos desempenham suas funções com eficácia. Para a maioria das castas, a leitura profunda é desencorajada, enquanto filmes sensoriais, jogos e a sexualidade casual são promovidos. Os indivíduos ora mergulham no trabalho, ora se distraem, sem jamais ter espaço para reflexão. Na distopia, não há “nada-jovens”: a engenharia biológica mantém os corpos joviais até a morte. Muito diferente do mundo atual, onde filtros de aplicativos apagam rugas apenas virtualmente e, por meio de assinaturas premium, IAs fazem parecer que as pessoas são mais inteligentes do que realmente são. Porém, se persistirmos nessa trajetória, ainda chegaremos lá.
Por Eric M. Rabello.
Nota da editoria:
A imagem da capa é um recorte da obra: “The ghost of vermeer of delft which can e used as a table” (1934), de Salvador Dalí (1904-1989). Foi associada ao artigo pelo fato de que, hoje, muitos vivem como peças de um grande aparato. Assim como os cidadãos de Admirável Mundo Novo, aqueles afetados pelo analfabetismo funcional permanecem presos a estruturas que moldam suas ações e pensamentos, limitando sua autonomia e obscurecendo a própria compreensão do mundo.

















